Mensagem de Natal do Arcebispo de ÉvoraQuinta, 19 de Dezembro de 2013
O evangelista S. Lucas, ao relatar o nascimento de Jesus, diz-nos que Sua Mãe “o recostou numa manjedoira por não haver lugar para eles na hospedaria” (Lc. 2,7). Ao ler esta frase do Evangelho, lembrei-me da conversa que tive com uma senhora, num lar de terceira idade. A certa altura da conversa, dizia-me ela: olhe, tive cinco filhos, a minha casa não era grande mas cabíamos lá todos e gostávamos de estar uns ao pé dos outros. Agora estou aqui. Os meus filhos, todos têm uma casa melhor do que a minha, onde eles nasceram e foram criados. E quer lá saber uma coisa? Nenhum deles tem lugar para mim.
No olhar daquela senhora podia ler-se um misto de alegria e de tristeza. A alegria maternal da mulher que se sente recompensada de todas as canseiras da vida, ao pensar no bem estar dos seus filhos. A tristeza de quem não pode ocultar a ingratidão daqueles por quem tinha gastado a vida.
Nunca mais esqueci aquela curta conversa. E fiquei a pensar que, afinal, a mãe, que gerou, alimentou, protegeu e ajudou os filhos a crescer, devia ter lugar na casa e no coração dos filhos. Mas não teve.
E eu continuei a pensar na semelhança entre ela e o Verbo Encarnado no seio de Maria: “veio para o que era seu e os seus não o receberam” (Jo 1,11). É essa uma situação que continua a repetir-se constantemente, com um sem número de pessoas que não têm onde morar. Na grande hospedaria do mundo, nos nossos dias e ao nosso lado, há muitos que não encontram lugar. Não encontram lugar na família, nos ambientes de trabalho, nas escolas, no emprego, nas casas de habitação, nos hospitais. Resta-lhes a rua e as instituições de caridade que os socorrem.
A sociedade dos humanos, que não recebeu o Salvador, continua a não ter lugar para acolher os que precisam. Mas, ao mesmo tempo, no coração humano, há muitos lugares disponíveis para a defesa dos interesses individuais. É mais fácil acolher a exploração do que a promoção; a avareza do que a generosidade; os excessos do que a compaixão; o hedonismo do que a renúncia; a vaidade do que a simplicidade; o egoísmo do que a caridade.
É mais fácil encontrar lugar para o messianismo explorador das pessoas e dos povos do que para a redenção que nos trouxe o Messias, nascido na humildade da gruta, em Belém. É mais fácil encontrar lugar para o Natal do consumismo do que para o Natal da partilha, da promoção da dignidade da pessoa humana e da defesa dos valores da vida.
O Filho de Deus não teve lugar na hospedaria. Nasceu numa gruta, na pobreza e na humildade, para redimir a humanidade do pecado da exclusão social e do apego exagerado e do uso injusto dos bens materiais, que, afinal, pertencem a toda a humanidade. Por isso, a autêntica celebração de Natal é aquela que se esforça por ampliar as dimensões da hospedaria do mundo, de forma que haja lugar para todos os seres humanos. Todos são portadores da mesma dignidade original, todos têm direito a um lugar e a uma vida digna.
+ JOSÉ, Arcebispo de Évora
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